segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Criança

Agora que sou mãe, sou mãe. 

Agora que você é meu filho, tenho um filho. 

Parece tudo um tanto óbvio e direto. 

Mas por que falta tanto? 

Se sou mãe, sou mãe. 

Se você é meu filho, tenho um filho. 

Mas por que não faz sentido? 

Mãe, filho. 

Filho, mãe. 

Acontece que eu também sou filha. 

E eu também tenho mãe. 

Nesse balaio de gato, sou tanto filha quanto sou mãe. 

Sou outras coisas também, um infinito delas.

Agora entendo que não sou só mãe. 

E agora entendo que você não é só meu filho. 

Eu sou mais, você é mais. 

Infinitamente mais.


Resultado

Sua cabeça, eu vejo, não desliga. É conta, conta, conta. 

Não adianta tentar somar. É zero mesmo o que restou.

Você vai morrer. 

Pode parar de calcular. 

E o resultado não é bonito. 

Sua família vai te ver indo embora nas piores circunstâncias .

Sem amor, sem admiração, sem uma gota de dignidade. 

Com que coragem você deixa a Terra?

Nenhuma, eu sei. 

Eu queria te dar uma colher de chá e sussurrar no seu ouvido que você pode ir em paz.

Não pode, né. Mas finge que pode.

Eu podia te dizer que vamos todos ficar bem e que você fez o que pode. 

Não fez, né. Mas finge que fez.

E o que sobra para mim? 

O meu resultado até que não é ruim.

Mas é, né. 

Enfim. 

Finge que não é.



terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Sabor salgado eu misturo com doce, cheiro bom eu levo pra cama, olhinho azul eu carrego comigo, amor bem perto, cada vez mais perto, não custava nada, né?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Desde o primeiro dia estava lá, em letras garrafais, escrito em minha testa. Nada fazia sentido, dos meus olhos escorria água salgada, nem um sorriso eu dava. Era como estar fora do meu corpo, como não seguir o meu caminho. Não fazia mesmo nenhum sentido. O sentimento era de imprecisão, de sufoco. O peso do meu corpo me alertava, tá errado, tá tudo errado. Sempre que eu parava pra pensar, era como traição. Eu me traía ali. A cada palavra, minha vida se extirpava, minha cabeça pendia ao lado, implorava, vamos embora. Como eu sai? Como consegui? Eu me fiz guerreira, essa é a verdade. Eu me fiz heroína, graças, minhas mãos levam a minha cabeça, que levam meus pés, que sabem muito bem aonde querem chegar. A gente vai andando e vocês vão ficando pra trás. Não me ligo muito a pessoas, deixo vocês por ai num pulo. Há uma seta bem grande no final da curva, e eu gosto mesmo é de me virar.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Faz sentido botar palavras na sua boca, assim como faz sentido pensar o mesmo pensamento inútil todos os dias. Essa minha dor de cabeça só vai embora, quando puder te levar junto.
Sem choro nem vela: mulher não joga futebol, não brinca de luta e se apaixona igual mosca varejeira.
Zuuum passou um versinho
Zuuum passou outro
Você pensou que eu viria, e eu não vim
Você disse que gostava, e eu também
Faltou sua mãe dizer "Tá bom, eu aceito".